"Nem tomates"
Uma história de homens, cacifos e pregos que nunca tive
Era ele. Era o carro dele. Era ele no guichet nove. Era ele a atender de colete na loja de peças electrónicas. Aqueles olhos não me enganam. Decorei cada detalhe a cada vez que ele me pendurou num cacifo ou no balneário ou com os olhos.
- Puto se tu me fazes isso outra vez, eu parto-te todo caralho. Tu nem sabes.
-Não fui eu…
-Não quero saber. Eu parto-te à mesma.
Cuspia-se e de forma involuntária cuspia-me também enquanto falava. Quase receava que me beijasse dada era a proximidade nestes momentos.
Fábio Costa. 5ºC. Filho de ex-emigrantes em França. Três vezes repetente no terceiro ano. Sotaque “avec”. Cabelo empastado em gel. Calças denim Fubu todos os dias cada vez mais largas. Fungador compulsivo. Cuspidor frequente. Era ele. Todo ele “mau como as cobras”.
Nos homens há esta regra: num grupo novo ganha quem fala mais alto. Não é quem é mais forte, quem é mais divertido ou obviamente inteligente. Ganha quem fala mais alto. E curiosamente ninguém o manda calar.
Nos grupos de mulheres é xadrez.
Nos homens é carrinhos de choque.
O Fábio não era o mais alto. Nem o mais forte. Mas falava alto. Muito alto.
Não era só o volume.
Era a forma como ocupava a sala de aula. E o recreio.
O recreio de pinheiros mansos era dele. Mal tocava a campainha sprintava pelos corredores para ser o primeiro a chegar lá abaixo. Quando os animais domésticos chegassem já ele estava deitado na pradaria a palitar os dentes e a apontar para a próxima presa.
Os putos afastavam-se o mais possível entretidos com as suas cartas uno e pão com Tulicreme. Mas era inevitável. Se fosses um alvo eras limpo. Bolas. Livros. Sandes. Tudo voava. Rabos também. Delas ou nossos. Os nossos com um pontapé de força brutal que ainda hoje me dói nos ossos. Os delas levavam um tratamento especial atrás do pavilhão.
Todos os dias um rabo diferente. Não era poliamor ou sequer paixão. Era mesmo uma máquina de lavar a boca. Um linguado infinito em apneia. Qual malhação na SIC. E pelo meio uma revista especial a corpo-inteiro com passagem de mãos por baixo das meias-calças de vidro. Era o sexo que era possível no cimento com janela para o pavilhao. E para quem tem 13 anos.
Senti logo um arrepio quando vi o honda civic dele estacionado à frente da loja de peças. Entrei. Atende por ordem de senhas. Caladinho e com colete verde da marca. Pedem-lhe e ele vai buscar. Sem ladrar. Sem bater.Pedi qualquer coisa. Não me reconheceu. Foi buscar e entregou-me. Paguei com dinheiro e saí.
Deu-me mesmo muita raiva. Raiva dele ou de não me reconhecer? Não sei. Só passaram 20 anos. Mas foi raiva salivar. Pus que me saiu dos olhos. Paguei com dinheiro e saí.
Dirigi-me ao carro dele. Olhei para a câmara de vigilância para garantir que me viam e furei-lhe os dois pneus traseiros. Que alívio. Que a justiça tarda mas chega. Brutal. Sou o vingador que sempre chega. O Arnold Schwarzenegger.
Depois abri os olhos.
Não tinha saído do assento do meu tesla.
De cona entre as pernas. Afinal também não tinha pregos à mão.
Nem coragem. Nem tomates.
